Comedor De Pecados

Comedor De Pecados

Esta semana eu e meu marido falávamos sobre uma situação cotidiana e ele fez menção à figura mítica do Comedor de Pecados. Metaforicamente podia mesmo aplicar-se ao fato que observávamos.

Eu nunca tinha ouvido falar nesta figura e então ele me explicou que na antiga Inglaterra, Escócia e País de Gales, cada aldeia tinha um membro (geralmente um mendigo), que era designado o “comedor de pecados”. Quando uma pessoa morria na aldeia, o comedor de pecados seria chamado para a sua casa. Um parente teria posto um pedaço de pão no peito do morto e oferecia um copo de cerveja para o comedor de pecados. O comedor de pecados ia beber cerveja e comer o pão, como se fosse comer os pecados da pessoa morta.

Depois disso também pesquisei outra referência: “O ‘devorador de pecados’ é um figura lendária cujo surgimento data da Idade Média. Essas pessoas eram contratadas para “assumir” as falhas mundanas destes. Eram sujeitos míticos, com pretensos poderes sobrenaturais, que promoviam rituais, envolvendo pão e sal, com o objetivo de “herdar” os pecados dos excomungados. Nessa espécie de extrema-unção pagã, os doentes “vendiam” os erros cometidos em vida aos míticos personagens, podendo assim evitar o inferno. Com o passar dos séculos, muitos povos europeus passaram a acreditar na existência de seres imortais que tivessem a capacidade real de “devorar” pecados. Essa lenda é resgatada no suspense “Devorador de Pecados” (The Sin Eater, EUA, 2003), do cineasta Brian Helgeland.”

Sobre a conversa que mencionei no início, falávamos sobre a beleza e a nobreza de saber confessar as próprias fraquezas e assumir os próprios erros. Muitos consideram isso como humilhação ou sinal de inferioridade. Também por demasiada arrogância e altivez, muitas pessoas parecem inclusive apostar na existência dos “comedores de pecados”, renegando suas culpas e transferindo-as para outrem, como se a solução momentânea os fosse livrar das consequências de seus atos descabidos. Ah soubessem elas quão feio e até desumano é passar sua culpa adiante como quem se desfaz de uma batata quente!

Em contrapartida, admitir as próprias falhas e imperfeições, demonstra, sim, muita consciência e personalidade. Quando temos a sorte de assistir tal demonstração de honra, é como se víssemos iluminar-se a face de quem assume o erro e por fim se faz claro todo o ambiente, luzentes todas as mentes, toda a situação. Diante de tal coragem e sabedoria percebemos o quanto a vida em sociedade poderia ser mais harmoniosa, composta de pessoas mais leves, realizadas, menos julgadas e em constante aprimoramento.

Enfim, acredito que o mundo caminha para o fim dessa crença inconveniente na salvação via “comedores de pecados”. Cada vez mais, a partir de cada um de nós, é possível vislumbrar conflitos pessoais sendo rapidamente dissolvidos e profissionais conquistando muito mais credibilidade e eficiência.

Grande abraço

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